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2 de mai. de 2001
Meu tava num fórum e li essa cronica, achei mó legal e por isso vou coloca-la aqui para voces lerem também

Tecla SAP

(Francisco Moreira Sinensis)


"Você sabe que pode contar comigo."
"Eu não sou muito bom nesse jogo, mas, já que gosta, vamos lá..."
"Oba, você já chegou!"
"Pode ficar com o último pedaço."
"Que me acordou que nada! Eu durmo muito tarde. Fala, estou te ouvindo."
"Gorda, você? Está brincando?!"
"Senti tanto a sua falta..."
"Adivinha quem perguntou por você...?"
"Descanse; depois eu faço isso com calma."
"Adorei conhecer sua mãe!"
"Ah, o que seria de mim sem você..."

Sou capaz de apostar que todos os leitores já ouviram pelo menos uma
dessas frases antes. Se não exatamente essas, com certeza outras parecidas.

Sou capaz de apostar também que esses mesmos leitores (como talvez 99% da
humanidade), se perguntados sobre o fato de já terem ouvido alguma vez na
vida aquelas fatídicas palavrinhas—"eu te amo"—, diriam: "Não; mas bem que
gostaria..."
Eu também gostaria. Todos gostaríamos. Em minha opinião, são as três
palavras mais bonitas da língua portuguesa, quando assim reunidas na mesma
frase. Da língua portuguesa e de todas as outras línguas.
Porém são só três palavras—e o significado que encerram é tão grande, tão
inexplicável, tão inatingível que, naturalmente, não costuma se deter
apenas nesse tradicional formato, e transforma-se e metamorfoseia-se de
quantas maneiras forem necessárias para exprimir-se com maior fidelidade.
E o que temos de fazer, em vez de nos sentarmos soturnamente no sofá à
(eterna) espera de uma bombástica declaração de amor, é apertarmos a tecla
SAP interior para decodificarmos essas pequenas e constantes declarações do
dia-a-dia, quase sempre diluídas nos olhares, nos toques, nas conversas,
até nos pensamentos. Declarações em todos os níveis, em todos os tipos de
relação, com todos os tipos de alfabeto, incluindo aqueles intransponíveis
para o papel.
Recordo-me, por exemplo, do caso do piloto francês Guillaumet, amigo de
Saint-Exupéry. Tendo de fazer uma aterrissagem desesperada num dos picos da
Cordilheira dos Andes, ele deixou o avião e caminhou 4 dias e 4 noites por
um deserto de neve, até ser descoberto, quase congelado, por uma equipe de
socorro. Depois de se restabelecer, Guillaumet revelou ao autor de O
Pequeno Príncipe o segredo de seu esforço: se permanecesse no alto, perto
do avião, teria sido sepultado pela neve e todos os seus vestígios
desapareceriam, tornando-se muito difícil provar legalmente sua morte para
que sua mulher recebesse o dinheiro do seguro. Descendo para a planície, no
entanto, o piloto tinha esperanças de que viessem a encontrar seu cadáver
facilmente, e de que sua esposa pudesse assim receber os recursos
necessários para manter um certo padrão de vida.
Lembro-me também dos exemplos de Santa Teresinha do Menino Jesus, que,
quando criança, gostava de gritar—"Mamãe!"— a cada degrau da escada, apenas
para ouvir a voz da mãe em resposta. Já crescida e no convento, nunca
reclamava ao receber respingos de água suja no rosto, por parte das irmãs
que lavavam roupa mais estabanadamente. Também se continha para não
criticar a irmã cujo terço fazia um irritante barulho que a desconcentrava.
E se oferecia para ser a dama de companhia da freira menos simpática do
convento, que se queixava de tudo e para quem Teresinha, no entanto, fazia
os menores serviços sem ser solicitada, como deixar-lhe o pão já
previamente cortado para o café.
Eu mesmo já presenciei ou conheci mais de perto inúmeros desses casos.
Soube, por parte de minha irmã, da história de um seu aluno no curso de
alfabetização de adultos, que estava aprendendo a ler escondido da esposa,
após anos de insistência desta para que ele voltasse a estudar. O objetivo
do aluno de minha irmã era fazer para sua mulher uma surpresa completa: a
primeira palavra que ele desejava aprender a escrever era o nome dela. Só
então contaria a verdade, para deixá-la mais orgulhosa.
Tenho um amigo flamenguista (roxo) cuja namorada é tricolor. No entanto,
cada um deles tem no armário a camisa dos dois times; se um destes estiver
jogando, ambos torcem pelo time em questão; e, em dias do clássico Fla-Flu,
os namorados recorrem a um neutro sorteio para decidirem em que torcida
ficarão—ambos, é claro, trajados a caráter... seja que caráter for.
Tenho uma outra conhecida que sai para o trabalho antes de os dois filhos
acordarem, e, em geral, só volta quando eles já estão dormindo. Apesar
disso, poucas mães são tão presentes: no horário em que as crianças voltam
da escola e ligam o computador, minha amiga aproveita todos os momentos de
folga para mandar-lhes bilhetes, cartões, mensagens pela Internet. Em época
de provas e trabalhos escolares, muitas vezes chega a enviar-lhes
resultados de pesquisas sobre os mais diversos assuntos. Em tempos de maior
descanso, inventa e manda charadas e desafios por e-mail, com as respostas
em mensagens posteriores.
Duvido, porém, que o piloto Guillaumet ou o aluno de minha irmã se
derramassem em palavras melosas às respectivas esposas, ou que a jovem
Teresinha saísse desesperadamente gritando "eu te amo" pelos quatro cantos
do convento. Também nunca presenciei uma declaração explícita de meu amigo
à namorada (ou vice-versa), e muito menos de minha conhecida aos filhos.
Mas quem duvidaria de que todas essas pessoas amassem e amem dentro de
todas as suas possibilidades? Uma árvore, como Jesus diria, se conhece
pelos seus frutos. O que dizemos pode até, às vezes, ser mentira; o que
fazemos, e o que desejamos ao fazê-lo, não.
Por isso, antes de nos julgarmos esquecidos, apertemos a tecla SAP de
nossa televisão e aprendamos a reconhecer nossas três palavras preferidas
sob a capa de todas as línguas e linguagens deste mundo. Não nos esqueçamos
de que há muita gente nele que, por vezes, não chega jamais a
pronunciá-las... e, mesmo assim, passa a vida inteira a dizê-las.


nota n?: 3467214 - postado por Dirriba na hora: 3:44 PM

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